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Języki kreolskie pochodzenia portugalskiego w Afryce 16 stycznia 2005
  

As línguas crioulas de base portuguesa em África

 

“Kriolu é arma de identifikason di kabuverdianu,

lingua di mórna y puezia, sínbulu di dor y speransa...

 ki inda sa ta spera se dignifikason di lingua di nason...” (www.capeverdeancreoleinstitute.org)

 

Facilmente se consta que o continente africano foi o território de contacto de falantes de várias línguas maternas. Em consequência, podem-se encontrar diferentes resultados possíveis de tal relação.

 

O contacto de línguas verifica-se sempre em situações de bilinguismo, isto é, naquelas em que uma sociedade ou um indivíduo utiliza, conforme os interlocutores ou as circunstâncias, dois ou mais registos linguísticos, duas ou mais línguas (Morais Barbosa, 1967:111). Para o bilinguismo ser perfeito, ou seja, para as línguas serem praticadas pelos falantes com inteira correcção, nenhuma delas pode ser afectada pelas outras. As línguas não chegam propriamente a contactar e mantêm-se mútuamente impenetráveis. Os casos de bilinguismo perfeito não ocorrem com frequência nas comunidades mas verificam-se num plano individual. O que normalmente sucede quando uma sociedade se torna bilingue é verificar-se o fenómeno de interferência linguística no campo do vocabulário, fonologia e da gramática que afecta somente uma ou mais de uma das línguas em contacto.

 

Um    tipo    extremo   de   contacto  entre  as  línguas  é  aquele  em   que   as   interferências linguísticas são tão  numerosas  e  profundas  em  cada  um  dos  idiomas  que  estes  acabam por  perder a sua individualidade. Neste caso, da combinação de traços das línguas em contacto resulta uma língua nova, distinta de cada uma daquelas que lhe deram origem. Deste modo, através de uma fase de pidginização, formam-se os chamados crioulos.

 

É preciso destacar também uma situação na qual uma comunidade, após um período de bilinguismo e de crioulização, acaba por perder a sua língua materna a favor de uma outra língua tornando-se novamente unilingue.

 

Nestes casos extremos situa-se a importação pelos idiomas em contacto, ou apenas por um deles, de traços de elementos de outro ou outros. Não admira que a interferência lexical seja a mais frequente, posto que se processe com maior facilidade e com menores consequências para o sistema da língua importadora. Este facto explica-se pela necessidade de atribuir designações a realidades novas ou de substituir as designações já existentes.  À língua dominante, que contribui com o léxico para a formação do pidgin e do crioulo, dá-se o nome de língua base, de língua lexificadora ou de superstrato.

 

Relembrando o que foi referido atrás, por línguas crioulas designam-se as línguas que resultaram da mútua interferência entre dois ou mais idiomas, um deles europeu e o outro ou outros não europeus, nomeadamente africanos ou asiáticos (Morais Barbosa, 1967:113).

 

Para caracterizar os crioulos, podem ser aplicadas duas teorias opostas. Os princípios da primeira, anunciada em 1881 por Adolfo Coelho, são os seguintes:

·        Os dialectos românicos e crioulos, indo-português e todas as formações semelhantes representam o primeiro  ou primeiros estádios na aquisição de uma língua estrangeira por um povo que fala ou falou outra.

·        Os   dialectos   românico - crioulos,   indo - português   e   todas   as   formações semelhantes devem a origem à acção de leis psicológicas ou fisiológicas por toda a parte as mesmas e não à influência das línguas anteriores dos povos em que  se acham esses dialectos (Celso Cunha, 1981:39).

 

A segunda teoria, que ainda hoje encontra seguidores, foi exposta por Lucien Adam que em 1883 afirmou: “O crioulo é uma lingua mista, constituída do vocabulário de um idioma europeu, adaptado ao sistema gramatical de uma língua indígena” (Celso Cunha, 1981:40).

 

 Não se pode esquecer da existência de uma terceira teoria, apesar de muito criticada, segundo a qual o crioulo era um tipo de baby-talk, uma precária comunicação inicial em que o senhor-mestre ensinava ao escravo improvisando formas que se identificavam às da linguagem infantil (Celso Cunha, 1981:40).

 

É óbvio que os crioulos não surgiram directamente após o primeiro contacto dos falantes de diferentes idiomas. Formaram-se gradualmente, passando pela fase dos chamados pidgins ou línguas francas, ou seja dos idiomas praticamente improvisados com elementos das línguas em presença.

 

Os representantes de diferentes famílias linguísticas , subitamente postos em contacto, necessitaram criar um novo meio de comunicação. Os colonizadores portugueses não se davam ao trabalho de aprender nenhuma das línguas indígenas. Os africanos, sobretudo os escravos, tinham de se esforçar para entender as ordens recebidas. Em consequência, algumas palavras do português, adaptadas à pronúncia da maioria das línguas nacionais, começaram a ser compartilhadas. Não havia ainda regras para se construirem frases. Tratava-se apenas de um tipo de jargão, do germe de uma língua comum entre  diversos povos aloglotas que conviviam no mesmo espaço. Quando começaram a surgir regras para a construção de frases elementares, o jargão inicial evoluiu para o pidgin.

 

Qualquer língua, em dado momento histórico, em situações de plurilinguismo e por razões de ordem social, nomeadamente, pela expansão comercial, religiosa, política ou militar, pode adquirir o estatuto de língua veicular ou língua franca (Lourenço, 1992:121).

 

Segundo as investigações de Adolfo Coelho, as primeiras línguas francas resultaram no Norte de  África das estreitas relações entre os Mouros e os Cristãos. Criou-se uma espécie de meia-língua chamada aljamia, capaz de servir de instrumento de comunicação entre aqueles povos de cultura e linguagem diferentes (Neto, 1957:129).

 

O pidgin corresponde aos primeiros estádios de aquisição espontânea de uma das línguas em presença; a língua do grupo socialmente dominante pelos falantes das outras línguas (Lourenço, 1992:120). Segundo a hipótese mais aceite, a palavra ‘pidgin’ teria provindo da expressão inglesa business English, pronunciada pelos chineses em seus contactos com os colonizadores ingleses (Couto em www.unb.br). Caracteriza-se por um léxico e morfologia muito reduzidos e pela redução dos domínios de emprego. Pode exercer a sua função com pouco mais de mil palavras, não podendo, pois, funcionar como língua materna. Outras formas de linguagem, como os gestos, e o contexto situacional são neste caso essenciais para o processo de comunicação. A falta de formas gramaticais que, por exemplo, localizem o enunciado no tempo faz com que só o contexto possa determinar a sua referência temporal, como na expressão: Min lavá mininu< Eu lavar menino (Lourenço,1992:120).

 

“ [...] a transmissão da língua alcança indivíduos de baixo nível social e cultural, o que leva ao estabelecimento de um falar de emergência, com carácteres definidos e vida própria, resultante da deturpação e simplificação    extrema    de    uma   língua,  quando  imperfeitamente

transmitida e aprendida por gente de civilização inferior” (Neto, 1957:134).

 

As crianças que nascem nessas comunidades recebem, como herança, esta forma imperfeita de linguagem mas para um pidgin poder funcionar como língua materna é preciso reestruturá-lo e complexificá-lo. Essa reestruturação e nativização dá origem a um crioulo em sociedades de forte miscigenação, fraco acesso à língua portuguesa e perda total ou parcial da funcionalidade das línguas maternas já existentes. Os lugares de isolamento e concentração como as ilhas, as plantações, os fortes e as cidades favorecem a formação de um crioulo.

 

O crioulo, portanto, é um ex-pidgin, ou seja, um pidgin que se tornou língua materna de crianças duma comunidade e cuja gramática e léxico foram complexificados e aumentados.

 

Se o pidgin só servia para uma comunicação precária, o crioulo serve para todas as necessidades expressivas e comunicacionais de seus usuários. Segundo a teoria de Anthony J. Naro:

 

“ Um crioulo é uma língua como qualquer outra, sujeita às mesmas regras gramaticais universais, uma vez que sua gramática é construída pelos que a aprendem como primeira língua da mesma maneira que qualquer outra gramática” (Celso Cunha, 1981:39)

 

É significativo que para os próprios europeus era conveniente, nos contactos entre si e com as populações de várias terras, utilizar a língua franca de base portuguesa. Estas condições propícias  ajudaram  à  formação  e à difusão da língua portuguesa, de pidgins e de crioulos de

base portuguesa pelo mundo.

 

Não obstante, nem sempre se formaram pidgins ou estes deram origem a crioulos.  Os pidgins, como formas linguísticas de recurso,  puderam desaparecer, quando desapareceram as condições que os tornaram necessários, ou fixar-se nos casos em que se manteve a convivência dos indivíduos e atribuiram-se os valores sistemáticos a elementos que circulavam sem estatuto linguístico ou com estatuto indefinido. Do mesmo modo, aos crioulos, criados do contacto com línguas dominantes, atribui-se geralmente um destino efémero quer por perda gradual das suas características linguísticas a favor da língua dominante, quer pela adopção de outras línguas, socialmente mais funcionais, pelos próprios falantes.

 

Segundo um processo que ficou conhecido como ‘o ciclo vital pidgin-crioulo’ (Hall 1962, Hymes 1971 em www.unb.br) as relações entre  pidginização, crioulização e descrioulização são as seguintes:

 

                 pidginização                                   crioulização                     descrioulização

jargão                                pidgin estável                                crioulo                               jargão

 

O equilíbrio estrutural da gramática de cada indivíduo estava perturbado pelo impacto do encontro com as gramáticas que os outros indivíduos dominavam, todas diferentes entre si. Este processo de desestruturação, ou de desgramaticalização, das línguas originais levou à pidginização, cujo estágio inicial é o jargão, chamado também pré-pidgin, pidgin instável, multilingual idiolect ou secondary hybrid. O jargão era  o efeito da difusão de língua ou línguas  de  substrato  e  de  língua  lexificadora,  ou  seja,  de  superstrato.  O  estágio final de

pidginização, o pidgin estável, chamado também de protocrioulo, depois da crioulização, passou a ser o crioulo, a língua materna de uma comunidade. Se não havia condições propícias para manter a vitalidade do crioulo, este, no processo de descrioulização, perdia o seu estatuto.

 

É importante revelar aqui os pormenores de uma teoria, segundo a qual devemos supor a existência, ao lado dos pidgins, de um outro ou outros modelos constituídos por formas mais ou menos empobrecidas mas sistemáticas dos idiomas de origem, que contribuiram para a criação dos crioulos. Segundo J.G. Herculano de Carvalho (1966:15) o modelo de formação dos crioulos é o seguinte:

                                                              

                                                              pidgin

português                                                                                                           proto-crioulo

                                                                                                                        

 

Não obstante, e apesar da perda de algumas colónias pelos portugueses, no século XVIII a resistência dos pidgins de base portuguesa foi enorme:

 

“ Causa admiração quão vastas possessões os portugueses tiveram outrora na África, Arábia, Pérsia, nas costas do Malabar e de Coromandel, Ceilão, Bengala, Malaca, nas ilhas das especiarias, Macau etc. [...] eles podem orgulhar-se de terem criado uma espécie de língua franca [...]” (Lockeyer ap. Lourenço, 1992:125).

 

 

Importa     salientar     que    todo   o   território    de    Portugal   contribuiu    com    material

linguístico   para  a  formação  das  variedades  ultramarinas  do  português.  Em   documentos

quinhentistas mencionam-se os colonos de Viana, de Bragança, de Guimarães, do Porto, de Aveiro, de Viseu, de Lisboa, do Algarve e de muitas outras cidades. No entanto, não se pode ignorar que grande parte dos povoadores tenha vindo dos Açores e da Madeira. Assim se deverá compreender que em muitos lugares, onde se usam os crioulos, o ponto de partida não seja a linguagem metropolitana senão a insular. 

 

Na linguagem comum e na literatura daquela época notam-se certas dificuldades em designar ou definir os diversos resultados linguísticos da expansão portuguesa. “Língua de preto, português simplificado, português corrupto ou mal falado, português negro, língua franca, jargão, linguajar, falar, crioulo, dialecto” são só algumas das denominações utilizadas (Lourenço, 1992:123). 

 

Analisadas as línguas crioulas africanas, podem-se enumerar os seguintes elementos essenciais:

 

·       são formas idiomáticas de uso constante e de natureza sistemática, utilizadas  

     como  idioma  primário  e  às  vezes  único  no  interior  de  uma  comunidade

     linguística homogénea;   

·       têm carácteres definidos mas um fio conductor;

·       dispõem de vida própria, isto é, o grupo expressa-se através deles;

·       é a deturpação e a simplificação de um idioma:

     - renuncia à distinção entre o singular e o plural, o masculino e o feminino;

     - simplifica o sistema pronominal;

     - abandona a conjugação portuguesa com os seus radicais e desinências para

                         indicar as pessoas, os tempos e os modos;

                       - em lugar do sistema verbal europeu introduz o sistema verbal das línguas

       africanas, daí que são os aspectos e não os tempos que caracterizam a

       conjugação;

·       as línguas são transmitidas deficientemente, pois nunca se ensinou uma fala  

      correcta;

·    são instrumentos de comunicação entre pessoas não instruídas

·    são ainda línguas ágrafas, em fase oral (Valkhoff, 1968:57).

 

Sendo, ao contrário dos pidgins, línguas maternas de uma comunidade, os crioulos uma vez formados, passaram a constituir símbolos de identidade de grupo o que explica a sua resistência às tentativas assimiladoras das línguas de poder e de maior prestígio social e cultural que com eles se mantiveram em contacto. Essa resistência foi tanto eficaz quanto maior o isolamento e quanto menor o poder e a pressão das línguas em contacto, nomeadamente através da instrução. Nas circunstâncias nas quais as populações falantes de crioulos ascenderam à independência, houve uma revitalização do crioulo, fortalecida nos casos de oficialização.

 

O fenómeno crioulo não implica apenas o mundo lusófono mas os crioulos portugueses são os mais antigos, pois começaram a formar-se já no século XV. A língua franca portuguesa, as vezes chamada ‘porto’, que se falava nas costas de África, desempenhou o papel de língua geral nos séculos XVI, XVII e XVIII, difundindo-se  por todos os mares do Sul e do Oriente e influindo nos vários falares dessa área (Bal, 1979:98). O  termo ‘crioulo’ foi utilizado pela primeira vez com referência a um dialecto de base lexical portuguesa na costa ocidental de África.

 

Após o processo  acima  descrito,  surgiram  em África crioulos de base portuguesa em Cabo Verde, na Guiné-Bissau, em Casamance, São Tomé e Príncipe e na ilha de Ano Bom, que pertence à república da Guiné Equatorial. Nas suas estruturas são visíveis os traços lexicais, fónicos e gramaticais  tanto de origem portuguesa como africana.

 

Os crioulos africanos de base portuguesa formam os seguintes grupos linguísticos:

 

1.             Crioulos caboverdianos e guineenses:

·        caboverdiano:

- de Barlavento, no Norte, usado nas ilhas de Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Sal e Boa Vista;

- de Sotavento, no Sul, utilizado na ilha de Santiago, Maio, Fogo e Brava;

·        guineense, senegalês:

    - Cacheu – Ziguinchor;

    - Bissau – Bolama;

    - Bafatá – Gabu;

- Casamance (Senegal);

 2.     Crioulos do Golfo da Guiné:

·        sãotomense – forro;

·        principense – moncó;

·        anobonense – fla d’Ambu;

·        angolar.

 

Quando se examina a situação linguística nas províncias de Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe,  verifica-se  que  nos  três  casos  falam-se,  a  par do português, línguas crioulas e na

 

Guiné  ainda  várias  línguas  negro-africanas.  Os  crioulos  de  Cabo  Verde  são  muito  mais

próximos  do  português,  enquanto  os  da  Guiné  e  de São Tomé conservam traços que mais

lembram a fonologia de certas línguas africanas.

 

Considerando o caso dos crioulos de Cabo Verde, podem-se enumerar os seguintes traços fonológicos:

  • abertura das vogais a, e, o seguidas duma consoante tónica: dança [dãsa], amêndoa [amẽdoa], conta [kõta];
  • redução da vogal e no ditongo ei seguido de consoante: manteiga [mantega], beijo [beзu];
  • conservação da pronúncia antiga de em [ẽ] e ão [õ]: ninguém [ninguẽ], carvão [karvã];
  • prunúncia bilabial da consoante v: navio [nabíu];
  • conservação da pronúncia africana de ch [tƒ]: cheirar [tƒeirar];
  • redução de l em lh na posição intervocálica: palha [páia], molhar [moiar];
  • redução do r final nos infinitivos, à excepção do verbo ser: ganhar [ganiá], cantar [cantá];
  • pronúncia de j [i]: juntar [iuntar]
  • palatalização das consoantes t, d seguidas de vogal, típico no Sotavento
  • redução das vogais átonas, troco do a tónico pelo o no caso das palavras que acabam com a vogal o, típico no Barlavento
  • falta de lh ou substituição por dj ou i: medjor (melhor), vei (velho), muêr (mulher) (Hlibowicka-Węglarz, 2003:23).

 

Os traços característicos da morfologia e da sintaxe dos crioulos caboverdianos são os seguintes:

 

  • falta  de  marcas  do  género feminino e do plural, tanto no caso dos sustantivos quanto

no dos adjectivos: Que home! em vez de Que homem!;

  • redução das formas verbais a uma só forma que não é parecida nem com a do infinitivo nem com qualquer tempo verbal: kãntά (cantar), à excepção dos verbos ter, vi e ir que funcionam só na terceira pessoa do singular do presente do indicativo;
  • uso de pronomes pessoais, que se juntam às formas verbais, em função de sujeito: ‘m, im, um (eu); bô, bó, bu (tu); el, é (ele, ela); nô, nû, dû (nós); bosê, bosêz, osêj, sej, busêz, bo, bu, besôte (vós); nô, nôz, nâ, nâz (nós); êz, êj, êr (eles, elas);
  • uniformidade dos pronomes: di mê (meu); nhâ (minha, meu); bô, de bôssa (vosso); ês (esse); quêl (aquel);
  • alteração de formas originais por analogia com outras formas crioulas: diskesi (esquecer); 
  • manutenção das formas, mas com rearranjo morfológico, no processo de formação de uma palavra com novo significado: distanpâ (perder a tampa);
  • uso dos verbos estar e haver em função de verbos auxiliares: stâ, tâ, tá, sá para o presente; tá taba (do português estava) para o imperfeito; á, al ( do português há-de) para o futuro; (do português havia) para o condicional (Hlibowicka-Węglarz, 2003:23);
  • o sistema verbal largamente influenciado pelo português: êl tâ kantâ (ele canta), êl tâ tâ kantâ (ele está a cantar), êl tá kantâ (ele cantava), êl tába tâ kantâ (ele estava a cantar), êl kantâ (ele cantou), êl tíña kantód (ele tinha cantado), êl á kantâ (ele há-de cantar) êl bé kantâ (ele cantaria), kantá (canta), kantõnd (cantando), êl tẽ kantód (ele tem  cantado),  êl  á  tẽ kantód  (ele terá cantado),  êl    tẽ  kantód  (ele teria cantado) ( Carvalho, 1966:14);

 

  • uso de ca em função da partícula ‘não’: Im ta ba la, si nhô crê, ma, si nhô ca crê, im ca ta ba (Vou lá, se o Sr. quer, mas, se o Sr. não quer, não vou);

·        o sistema verbal evoluiu no sentido da perda dos valores aspectuais e sua substituição por valores temporais (Morais-Barbosa, 1965:13);

 

Acrescente-se a isso que existem diferenças no kabuverdianu que dependem da ilha. O crioulo da Ilha de Santiago, a primeira ilha do arquipélago povoada na altura da conquista, é considerado o mais antigo e o mais conservativo. As influências africanas no santiaguense são muito visíveis.  F.Martius e N. Quint-Abrial (1999:173 em Hlibowicka-Węglarz, 2003:25) afirmam que este crioulo serviu de base para a criação de todas as línguas crioulas do Oeste de África.

 

Por outro lado, segundo as investigações de Dulce Almada Duarte (1961 em Celso Cunha, 1981:96):

 

“ O crioulo que mais influência recebe do português é o de São Vicente, onde se encontra o fulcro da instituição - o liceu. [...] O mindelense representa uma espécie de confluência de todos os crioulos do arquipélago”.

 

É de salientar que na linguagem comum do arquipélago coexistam dois tipos de crioulo: o chamado ‘crioulo fundo’, isto é, o crioulo mais fiel ao tipo tradicional, e o ‘crioulo levinho’ influenciado pelo português, ou seja, o português crioulizado. (Silva, 1957:44).

 

Passando   a  situação  linguística  da  Guiné,  o  crioulo  é  ali  utilizado  juntamente  com  as

múltiplas línguas  nacionais,  o que torna o conhecimento do português muito escasso. O kriol surgiu na região dos rios da Guiné, do rio Senegal a Serra Leoa, no início do século XVI e hoje desempenha o papel da língua de unidade nacional. Os seus traços principais são os seguintes:

 

  • o j não se conserva ou transforma-se em dj: djá (já), pode também transformar-se em ç: grêça (igreja), loça (loja), quiço (queijo);
  • o s tem sempre valor de ç: nha doç balé (meus dois balaios);
  • o plural forma-se com um prefixo africano e uma desinência portuguesa: ba-quissas (coisas), ou só com um prefixo africano: ba-djobê (os curiosos);
  • usam-se poucos pronomes pessoais: ‘m, ami (eu), (tu), i, ê (ele, ela);
  • as partículas mais usadas: ca (não), pa (para) (Peixoto da Fonseca, 1985:241);
  • a conjugação verbal afasta-se da dos crioulos caboverdianos: bó ta cantá (tu cantas, cantarás), ê na ba busca-bo (ela procura-te), ‘m comé djá ou dja-m comê (comi), comeba (comia);
  •  o verbo normalmente não se flexiona em número-pessoa nem em tempo-modo, as ideias de tempo, modo e aspecto são indicadas pelas partículas que vêm antes do verbo: i fuma (ele fuma), i fuma ba (ele tinha fumado, fumara), i ba fuma (ele vai/foi/ia fumar), i ta fuma (ele tem o hábito de fumar), i na fuma (ele está a fumar);
  • a ordem das palavras geralmente é fixa: mininu kume kaju (o menino comeu o caju), el kume kaju (ele comeu o caju), el kumel (ele comeu-o), i sta na kaasa (ele está em casa), i sta li (ele está aqui), i ka sta (ele não está) (www.comciencia.br);
  • os monemas aspectuais são os seguites: na (progressivo, sem referência ao tempo em que  decorre a acção, também como locativo): i na durmi (ele esteve/estava/está/estará

a dormir), i sta na kaasa (ele está em casa); ta (um futuro menos iminente, um habitual,  um  progressivo  após  um  auxiliar  verbal ou uma condicional): i ta bin (ele

vem agora ou no futuro), i kumsa ta tƒoora (começou e continuou a chorar); ba (indica uma acção que aconteceu antes da maioria das acções do contexto): i bin ba (ele veio, tinha vindo); dza (acção passada que continua no presente): i baj dza (ele foi e está ausente); um monema zero (presente, pretérito perfeito): i sibi (ele sabe, soube) (Wilson, 1962:22).

 

O crioulo de São Tomé e Príncipe, por sua vez,  não tem de partilhar a sua posição com nenhumas línguas nativas. Nas ilhas funcionam várias línguas crioulas, das quais três são as mais usadas: o angolar (à base do kimbundo, a língua dos Umbundo de Angola), o forro e o moncó (à base do português). Enquanto os crioulos de Cabo Verde são parecidos com o crioulo da Guiné, os de São Tomé e Príncipe levam, sobretudo, traços das línguas angolanas. Não obstante, a sua pronúncia é semelhante à fonética dos crioulos caboverdianos:

  • o ditongo ei é reduzido a uma simples vogal e: (meio);
  • o e tónico substitui o a na posição tónica: kéga (carga);
  •  a consoante d seguida pelo i é palatalizada;
  • os fonemas nh e lh intervocálicos desaparecem: uriá (orelha);
  • o r é substituído pelo l: glêza (igreja), limó (irmão); recebe um i de apoio: frori (flor) ou cai: cuié (colher);
  • o j é pronunciado como [z] ou [dз]: súzu (sujo), djá (dia), zinela (janela);
  • o lugar do acento é bastante incerto: onze [onzé], nove [nóve] (Hlibowicka –Węglarz, 2003:29).

 

Os traços característicos da morfologia, flexão e sintaxe são os seguintes:

 

  • as formas do plural são formadas pela adição do advérbio monchi (muito): cuié monchi (colheres);
  • os pronomes mais usados são os seguintes: ‘m, ami ,im (eu), (tu), ê (ele, ela), mu,

            mim, me (meu), sê,issê (esse), isselá (aquele): caci mé (minha casa);                             

  • os tempos verbais são designados pelas partículas: cá, ská (aqui) no presente; (já) no passado e gá bi no futuro e pela forma táva: kasó ká modé-mu (o cão morde-me), kasó ská modé-mu (o cão está a morder-me), kasó detá-za ( o cão já se deitou), ami cá flá ou ‘m flá (eu falo),  ami flá zá ou ‘m flá zá (eu falei), ‘m gá bi flá (falarei), fésa táva víla (houve/havia festa na aldeia) ( Peixoto da Fonseca, 1985:242); 
  • a sintaxe é bastante parecida com a portuguesa: Mina pikina ka pidji ku bóka, ngê tamé ka pidji ku uê (A criança pede com a boca, o adulto pede com os olhos) (www.instituto-camoes.pt).

 

O crioulo falado pelos jovens são-tomenses encontra-se muito mais aportuguesado que o falado por indivíduos de avançada idade. No domínio fónico, por exemplo, introduz-se o fonema r, tradicionalmente desconhecido deste crioulo. Certos jovens têm até dificuldade em compreender a forma mais conservadora. Em consequência, o crioulo da ilha do Príncipe mostra tendência para o rápido desaparecimento, pelo abandono e pela substituição pelo português (Morais Barbosa, 1965:19).

 

Como mostram os exemplos acima citados, os crioulos de base portuguesa têm uma posição forte no mundo linguístico africano. São as verdadeiras jóias linguísticas, das quais é preciso cuidarmos. É indispensável que os jovens africanos não abandonem a fala dos seus pais a favor do português porque a formação e a conservação dos crioulos dependem deles e, sendo os fenómenos únicos à escala do planeta, devem manter-se vivos.

Natalia Czopek natalia@iberysci.pl

 


Bibliografia


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